quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Capitalismo, educação e formação para o trabalho



Numa sociedade capitalista onde o foco principal é a produção e o acúmulo de riqueza, as instituições que a compõem devem, de certa maneira, funcionar de tal forma que esta sequência não seja interrompida ou nem mesmo questionada. Devem-se aprimorar as técnicas, render mais, evitar o desperdício de tempo, reduzir os custos de produção, negar direitos e permitir que este ciclo funcione perfeitamente.
Este contexto serviu de inspiração (e de crítica) para Charles Chaplin produzir o filme “Tempos Modernos” de 1936, onde o personagem principal, Carlitos, interpretado por ele, é um operário numa linha de montagem nos anos seguintes à crise de 1929, que levou boa parte da população ao desemprego e à fome. Dentro da fábrica, havia um ritmo frenético de produção de peças, sendo um serviço tão mecânico que os mesmos gestos produzidos por ele em frente à esteira onde passavam as peças, se repetiam automaticamente depois das horas de trabalho, o que podemos interpretar como uma referência ao modelo fordista de produção, quando um trabalhador produz em massa e realiza sempre um mesmo trabalho específico.
Além da situação de explorado, o filme ainda tem cenas onde a desigualdade social é abordada. Carlitos e a jovem órfã sonham em possuir uma casa e jardim iguais aos que o casal de classe média tem, mas o que eles conseguem é apenas um casebre em péssimas condições físicas e nas margens da cidade.
Imagem 1: Cena do filme Germinal
Outra obra artística que se encaixa no que temos descrito aqui é o filme “Germinal”, baseado no livro homônimo de Émile Zola. O ambiente em que o enredo do longa-metragem se desenvolve são as minas de carvão na França na segunda metade do século XX. Os trabalhadores tinham péssimas condições de trabalho, de remuneração e ainda eram punidos por melhorias paliativas que eles mesmos produziam para continuar no trabalho, mas estas eram descontadas dos seus pequenos salários. Diante de tal situação, um dos operários, Étienne, começa a incitar a união dos trabalhadores em busca da reivindicação de seus direitos e optam por iniciar uma greve nas minas. Sem expectativa de melhorias e com o agravamento da fome e a perda de alguns companheiros, eles retornam aos trabalhos.
Com os exemplos destes dois filmes, podemos fazer um paralelo com o que tem acontecido nas nossas escolas. Percebemos que a busca por resultados, a otimização do tempo, o fazer mais com menos recursos não se limitam às fábricas, mas já é realidade no atual sistema educacional brasileiro, cujo cartão-postal são os índices que tentam mostrar avanço na área.
O “produzir mais peças” nas fábricas se converte em produzir mais números de aprovados nesta ou naquela avaliação externa; o “evitar desperdício de tempo” é ocupar tanto professor quanto aluno no maior número de atividades possíveis, sobrecarregando-os; o “reduzir os custos de produção” é dar aulas diferentes e criativas sem o mínimo básico de recursos necessários, desde o pincel que mal escreve uma frase até o data show único para dezenas de professores.
No entanto, enquanto educadores, somos também incentivadores para que cada um de nossos alunos perceba a realidade no qual está inserido, no contexto em que todos nós estamos na condição de explorados. Precisamos estimular a reflexão e fomentar ainda mais a prática. Como diz Paulo Freire (1987, pág. 29), “ao defendermos um permanente esforço de reflexão dos oprimidos sobre suas condições concretas, não estamos pretendendo um jogo divertido em nível puramente intelectual. Estamos convencidos, pelo contrário, de que a reflexão, se realmente reflexão, conduz à prática”.
É nesse pensamento que podemos citar o filme “Sociedade dos poetas mortos”, de 1989, que desenvolve esta temática de fazer o aluno se destacar, de ir além do que esperam dele, de fazer valer seu próprio esforço e com isso, trazer alguma mudança no aparente status quo imutável que nos rodeia.O professor Sr. Keating, interpretado por  Robin Williams,aproveita cada oportunidade que tem com seus alunos para fazer deste momento algo único, fazendo valer a expressão árcade “carpe diem”.
Diante do que temos discutido aqui, estamos diante de um dilema que nos tem causado inquietação e que, no entanto, aparentemente, temos nos mobilizado pouco para revertê-la. Nas palavras de Aranha (2006, pág.245), “ainda hoje a escola procura o prumo entre as duas orientações da educação para o trabalho e a educação humanista, que têm configurado o dualismo escolar, responsável pela perpetuação da desigual repartição dos saberes. Ou ao contrário, diante de uma sociedade tecnocrática, a escola é mantida como prisioneira do objetivo de preparação para o mercado de trabalho, descuidando-se da formação integral e da consciência crítica”.
Concluímos neste ponto com um questionamento para a reflexão: Devemos ir à luta e ser punidos como os operários em Germinal ou permitir que a engrenagem do sistema nos engula como fez com Carlitos? Ou ainda, o que falta (se é que falta) em cada um de nós para sermos também um professor Keating?
Imagem 2: Cena do filme Tempos Modernos.

REFERÊNCIAS

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. História da Educação e da Pedagogia. Geral e Brasil.3ª Ed. São Paulo: Moderna, 2006.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17ª Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

Imagem 1: http://strawberrydelivrosefilmes.blogspot.com.br/2012/12/filme-germinalresenha.html
Imagem 2: https://www.youtube.com/watch?v=FNv7M-UPNuY 

Nenhum comentário:

Postar um comentário