Numa sociedade capitalista onde o
foco principal é a produção e o acúmulo de riqueza, as instituições que a
compõem devem, de certa maneira, funcionar de tal forma que esta sequência não
seja interrompida ou nem mesmo questionada. Devem-se aprimorar as técnicas,
render mais, evitar o desperdício de tempo, reduzir os custos de produção,
negar direitos e permitir que este ciclo funcione perfeitamente.
Este contexto serviu de inspiração (e
de crítica) para Charles Chaplin produzir o filme “Tempos Modernos” de 1936,
onde o personagem principal, Carlitos, interpretado por ele, é um operário numa
linha de montagem nos anos seguintes à crise de 1929, que levou boa parte da
população ao desemprego e à fome. Dentro da fábrica, havia um ritmo frenético
de produção de peças, sendo um serviço tão mecânico que os mesmos gestos
produzidos por ele em frente à esteira onde passavam as peças, se repetiam
automaticamente depois das horas de trabalho, o que podemos interpretar como
uma referência ao modelo fordista de produção, quando um trabalhador produz em
massa e realiza sempre um mesmo trabalho específico.
Além da situação de explorado, o
filme ainda tem cenas onde a desigualdade social é abordada. Carlitos e a jovem
órfã sonham em possuir uma casa e jardim iguais aos que o casal de classe média
tem, mas o que eles conseguem é apenas um casebre em péssimas condições físicas
e nas margens da cidade.
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| Imagem 1: Cena do filme Germinal |
Outra obra artística que se encaixa
no que temos descrito aqui é o filme “Germinal”, baseado no livro homônimo de
Émile Zola. O ambiente em que o enredo do longa-metragem se desenvolve são as
minas de carvão na França na segunda metade do século XX. Os trabalhadores
tinham péssimas condições de trabalho, de remuneração e ainda eram punidos por
melhorias paliativas que eles mesmos produziam para continuar no trabalho, mas estas
eram descontadas dos seus pequenos salários. Diante de tal situação, um dos
operários,
Étienne, começa a incitar a união dos trabalhadores
em busca da reivindicação de seus direitos e optam por iniciar uma greve nas
minas. Sem expectativa de melhorias e com o agravamento da fome e a perda de
alguns companheiros, eles retornam aos trabalhos.
Com os
exemplos destes dois filmes, podemos fazer um paralelo com o que tem acontecido
nas nossas escolas. Percebemos que a busca por resultados, a otimização do
tempo, o fazer mais com menos recursos não se limitam às fábricas, mas já é
realidade no atual sistema educacional brasileiro, cujo cartão-postal são os
índices que tentam mostrar avanço na área.
O
“produzir mais peças” nas fábricas se converte em produzir mais números de
aprovados nesta ou naquela avaliação externa; o “evitar desperdício de tempo” é
ocupar tanto professor quanto aluno no maior número de atividades possíveis,
sobrecarregando-os; o “reduzir os custos de produção” é dar aulas diferentes e
criativas sem o mínimo básico de recursos necessários, desde o pincel que mal
escreve uma frase até o data show
único para dezenas de professores.
No
entanto, enquanto educadores, somos também incentivadores para que cada um de
nossos alunos perceba a realidade no qual está inserido, no contexto em que
todos nós estamos na condição de explorados. Precisamos estimular a reflexão e
fomentar ainda mais a prática. Como diz Paulo Freire (1987, pág. 29), “ao
defendermos um permanente esforço de reflexão dos oprimidos sobre suas
condições concretas, não estamos pretendendo um jogo divertido em nível
puramente intelectual. Estamos convencidos, pelo contrário, de que a reflexão,
se realmente reflexão, conduz à prática”.
É nesse
pensamento que podemos citar o filme “Sociedade dos poetas mortos”, de 1989,
que desenvolve esta temática de fazer o aluno se destacar, de ir além do que
esperam dele, de fazer valer seu próprio esforço e com isso, trazer alguma
mudança no aparente status quo imutável
que nos rodeia.O professor Sr. Keating, interpretado por Robin Williams,aproveita
cada oportunidade que tem com seus alunos para fazer deste momento algo único,
fazendo valer a expressão árcade “carpe diem”.
Diante do
que temos discutido aqui, estamos diante de um dilema que nos tem causado
inquietação e que, no entanto, aparentemente, temos nos mobilizado pouco para
revertê-la. Nas palavras de Aranha (2006, pág.245), “ainda hoje a escola
procura o prumo entre as duas orientações da educação para o trabalho e a
educação humanista, que têm configurado o dualismo escolar, responsável pela
perpetuação da desigual repartição dos saberes. Ou ao contrário, diante de uma
sociedade tecnocrática, a escola é mantida como prisioneira do objetivo de
preparação para o mercado de trabalho, descuidando-se da formação integral e da
consciência crítica”.
Concluímos
neste ponto com um questionamento para a reflexão: Devemos ir à luta e ser
punidos como os operários em Germinal ou permitir que a engrenagem do sistema
nos engula como fez com Carlitos? Ou ainda, o que falta (se é que falta) em
cada um de nós para sermos também um professor Keating?
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| Imagem 2: Cena do filme Tempos Modernos. |
REFERÊNCIAS
ARANHA, Maria Lúcia de
Arruda. História da Educação e da Pedagogia. Geral e Brasil.3ª Ed. São
Paulo: Moderna, 2006.
FREIRE, Paulo. Pedagogia
do Oprimido. 17ª Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
Imagem 1: http://strawberrydelivrosefilmes.blogspot.com.br/2012/12/filme-germinalresenha.html
Imagem 2: https://www.youtube.com/watch?v=FNv7M-UPNuY